O último episódio terminou com a expressão quem desdenha, quer comprar que na verdade é a versão popular portuguesa da moral de uma fábula.
Fábulas são pequenos contos que pretendem ensinar uma lição ou promover uma determinada conduta moral e por isso são dirigidos sobretudo às crianças. Estas histórias tiveram origem na tradição oral do Oriente e têm como principais protagonistas animais que falam e se comportam como pessoas. Cada animal simboliza algum aspeto ou qualidade dos seres humanos, por exemplo: a formiga representa o trabalho; o leão, a força; a raposa, a astúcia.
Considerando os objetivos didáticos deste género narrativo não surpreende que algumas fábulas estejam diretamente relacionadas com ditados e provérbios. No episódio 48, descrevemos como a fábula A lebre e a tartaruga deu origem à expressão devagar se vai ao longe e hoje detalhamos a relação entre A raposa e as uvas e a máxima quem desdenha, quer comprar.
A história desta fábula é muito simples: uma raposa supostamente morta de fome dirige-se a um campo de vinhas ou vinhedo para comer as uvas que ali encontrará. As parreiras estão, de facto, carregadas de uvas e há muito cachos já maduros que poderiam servir-lhe de repasto. No entanto, a alegria que a raposa sente quando pensa que, em breve, irá saciar a sua fome dura pouco tempo pois, por mais que se esforce, esticando-se e saltando para apanhar aquelas uvas suculentas e doces, estas estão definitivamente fora do seu alcance. Por fim, cansada de tantos esforços em vão, decide admitir derrota e ir buscar comida a outro lado. Mas não sem antes afirmar:
— Estas uvas estão verdes e são azedas e nem dadas eu as comeria...
Esta fábula pretende ensinar as crianças que nem tudo se recebe de mão-beijada ou se conquista sem esforço e para alcançar um objetivo é, frequentemente, necessário trabalhar arduamente. É, contudo, muito fácil falar mal ou desprezar o nosso objetivo para tentar convencer os outros, ou a nós próprios, que afinal o que tanto cobiçámos já não nos interessa como acontece com a astuta raposa de Esopo.
Em Portugal, a moral desta fábula consolidou-se no anexim: quem desenha, quer comprar e usa-se para descrever alguém que, após perder alguma coisa se recusa a admitir derrota e prefere negar o seu interesse.
Para ilustrar o uso da expressão podemos recorrer a uma interação que presenciámos num mercado: “A como são as cerejas?” — pergunta uma senhora altiva e pomposa. “Seis euros a caixa. São do Fundão.” — responde a vendedora. A senhora, vestida como se fosse a um casamento e cheia de anéis de ouro e pedras preciosas nos dedos, respinga: “Mas a grande maioria está madura demais...” A vendedora irritada, resmunga entre-dentes para que a sua potencial cliente não oiça: “Quem desdenha, quer comprar...”