— Então já sabes quando é que terminam as obras do teu prédio?

— Não faço a mínima ideia. Os trabalhadores vêm trabalhar durante três dias e depois desaparecem durante dez...

— Não existe uma data limite para finalizar a obra?

— Existir, existe mas é uma característica dos portugueses deixar tudo para as calendas gregas.

— Não é verdade, o que os portugueses fazem é deixar tudo para a última hora e depois fazer as coisas em cima dos joelhos... Quando dizemos que algo se vai realizar nas calendas gregas o que queremos dizer é que não se vão realizar nunca. Calendas eram os primeiros dias de cada mês do calendário romano; o calendário grego não tinha calendas, portanto realizar algo nas calendas gregas é impossível porque simplesmente não existem. É como o dia de São Nunca à tarde (episódio 88) que também faz referência a uma data inexistente.
É frequente os falantes de português dos dois lados do Atlântico acharem que esta expressão quer dizer adiar para uma data muito distante ou indefinida no tempo como quando se usa a expressão latina “sine die” mas o que a expressão realmente descreve é o cancelamento de algo, pois nunca chegará o dia planeado para a realização do evento agendado.

— Nesse caso, espero sinceramente que a empresa que está a fazer as obras do meu prédio não deixe para amanhã o que pode fazer hoje (episódio 6) e termine as obras o mais rapidamente que conseguir.

— Acho que podes esperar sentado (episódio 88), pois a probabilidade que isso aconteça é muito reduzida. O mais provável é que, perto da data acordada para concluírem a obra, apareçam e façam tudo à pressa para terminar dentro do prazo estipulado. Os portugueses são conhecidos em todo o mundo pela sua capacidade de solucionar problemas no último minuto.

— E fazerem as coisas em cima do joelho...

 — Sim, infelizmente também.
Conheces a origem dessa expressão? Descobri-a no livro de Sérgio Luís de Carvalho e é muito engraçada: segundo ele, os romanos faziam telhas literalmente em cima dos joelhos. Quer dizer, usavam as suas coxas como molde para a telha e, como nenhuma coxa tinha o mesmo tamanho, o resultado final era telhas de diferentes formas que não serviam para nada porque não encaixavam umas nas outras como se pretendia.

— Que curioso, eu pensava que fazer algo em cima do joelho descrevia o processo de realizar algo desajeitadamente ­— no colo em vez de uma mesa, pois é o sítio que está mais à mão ou que não requer nenhuma planificação. Basta sentarmo-nos et voilá o nosso colo transforma-se numa mesa de trabalho.

— Pois é, mas como não é muito estável, nem confortável, o resultado final acaba por ser manhoso — como as telhas dos romanos. Assim, a expressão descreve ambas as coisas: a realização apressada e atabalhoada de um trabalho e o trabalho mal feito que resulta da falta de tempo e cuidado.

 

OUTRAS EXPRESSÕES DESCRITAS
deixar tudo para a última hora

dia de São Nunca à tarde
(episódio 88)
em cima do joelho

esperar sentado
(episódio 88)
fazer tudo à pressa
não deixe para amanhã o que pode fazer hoje
(episódio 6)

 

EXPRESSÕES USADAS NOUTRA(S) LÍNGUA(S)
at the eleventh hour

leave everything to the last minute

 

BIBLIO

"Feito em cima do joelho". Português à Letra disponível em https://portuguesaletra.com/expressoes/feito-em-cima-do-joelho-expressao/ [último acesso a 18 de abril de 2021]

Barata, Paulo J.S. "Adiado para as calendas". Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. 26.07.2013. disponível em https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/pelourinho/adiado-para-as-calendas/2715. [último acesso a 24.03.2021]

Carvalho, Sérgio Luís de. Nas Bocas do Mundo. Lisboa. Edições Planeta. 2010. 3.ª edição 2018.

Nogueira, Sérgio. "Conheça a origem da expressão 'deixar para as calendas gregas.'" Globo/Dicas de Português. 25/11:2013. disponível em http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/conheca-a-origem-da-expressao-deixar-para-as-calendas-gregas.html [último acesso a 18 de abril de 2021]